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BCL6 positivo: o marcador por trás de abortos de repetição
Olá, queridas. Hoje eu quero conversar com você sobre um marcador que ainda é pouco falado nos consultórios brasileiros, mas que pode ser a peça que faltava no seu quebra-cabeça: o BCL6 positivo.

Se você está enfrentando abortos de repetição, falhas de implantação na FIV ou aquela sensação de que faz tudo certo e mesmo assim o teu positivo não vem ou a tua tão esperada gestação não segue adiante, este texto é para você. Vamos por partes, com calma e com ciência. Pega um cafezinho e senta que a gente vai conversar!
O que é o BCL6 e por que ele importa
O BCL6 (sigla para B-cell lymphoma 6) é uma proteína ligada à inflamação. Quando ela aparece superexpressa no endométrio, aquele tecido que reveste o útero e recebe o embrião, funciona como um sinal de alerta. Ela indica que existe um ambiente inflamatório crônico ali dentro, e esse ambiente hostil dificulta a implantação do embrião e a manutenção da gestação.
Pense no endométrio como o solo onde a sementinha precisa se fixar. Quando esse solo está inflamado, mesmo um embrião de boa qualidade encontra dificuldade para se implantar e crescer. É por isso que o BCL6 positivo aparece com tanta frequência associado à infertilidade sem causa aparente, aos abortos de repetição e às falhas repetidas de implantação na fertilização in vitro.
Como o exame é feito
A pesquisa do BCL6 é realizada por imuno-histoquímica em uma amostra de biópsia do endométrio, geralmente coletada na fase da janela de implantação. É um exame relativamente simples de coletar, mas que precisa de um laboratório preparado para fazer a análise corretamente e de um médico que saiba interpretar o resultado dentro do seu contexto.
BCL6 positivo e a forte ligação com a endometriose
Aqui está um dos pontos mais importantes deste post. O BCL6 elevado é considerado um excelente indicador da presença de endometriose, muitas vezes daquela endometriose silenciosa, que não dá sintomas clássicos e que passa despercebida por anos.
Uma publicação no Journal of the Society of Laparoendoscopic Surgeons (JSLS), conduzida pelo grupo de Camran Nezhat, analisou 75 pacientes. O resultado impressiona: 96% das mulheres que apresentavam a superexpressão da proteína BCL6 tiveram o diagnóstico de endometriose confirmado por outros exames e pela videolaparoscopia. Ou seja, o BCL6 se mostrou um ótimo preditor dessa doença.
Isso muda o jogo. Muitas mulheres passam anos ouvindo que está tudo bem, que é só continuar tentando, quando na verdade existe uma endometriose por trás daquela dificuldade toda.
Por que a endometriose atrapalha tanto
A endometriose gera um estado inflamatório que afeta não só a pelve, mas também a receptividade do endométrio. Ela está ligada à resistência à progesterona, que vou explicar mais adiante, e cria justamente aquele ambiente hostil que dificulta a implantação.
BCL6 e as taxas de sucesso na FIV
Se você já fez ou está pensando em fazer fertilização in vitro, preste muita atenção nesta parte.
Um estudo de Likes e colaboradores, publicado na revista JARG em 2017, acompanhou 85 mulheres com BCL6 positivo antes da transferência de embriões. Elas foram divididas em três grupos com condutas diferentes, e as taxas de nascimento foram comparadas:
Grupo 1: sem tratamento. Taxa de nascimento de apenas 7,4%.
Grupo 2: tratamento medicamentoso por 2 meses. Taxa de nascimento de 50%.
Grupo 3: tratamento cirúrgico por videolaparoscopia. Taxa de nascimento de 52,8%.
Olhe esses números com carinho. Sair de 7,4% para mais de 50% de chance de levar um bebê para casa depois de tratar a inflamação é uma diferença gigantesca. Isso mostra que identificar e tratar o BCL6 positivo antes da transferência embrionária pode transformar completamente o seu resultado.
A resistência à progesterona por trás de tudo isso
Um dos mecanismos que conecta o BCL6, a endometriose e as falhas de gestação é a resistência à progesterona. Você também pode encontrar esse conceito com outros nomes, como deficiência de progesterona, deficiência de fase lútea ou fase lútea curta.
A progesterona é o hormônio que prepara e sustenta o endométrio depois da ovulação, na segunda metade do ciclo. Ela é fundamental para transformar aquele solo em um lugar acolhedor para o embrião. Quando o corpo produz pouca progesterona, ou quando o endométrio inflamado não responde bem a ela (a tal resistência), a janela de implantação fica comprometida.
Como perceber sinais de fase lútea curta
Se você acompanha seu ciclo pelo método sintotermal, já tem uma vantagem enorme aqui. A fase lútea vai do dia da ovulação até a menstruação. Quando ela é consistentemente curta, com menos de 10 dias, ou quando a temperatura basal não se sustenta bem elevada depois do Peak Day, isso pode ser um indício de deficiência de progesterona.
Registre suas temperaturas, observe seu muco cervical e anote em que DC ocorre sua ovulação. Esses dados são preciosos e ajudam o seu médico a enxergar o que os exames de sangue sozinhos às vezes não mostram.
Progesterona: oral, vaginal e bioidêntica
Quando existe deficiência de fase lútea, a suplementação de progesterona costuma entrar na conduta. No Brasil, um dos medicamentos mais usados é o Utrogestan, que contém progesterona bioidêntica, ou seja, molecularmente igual àquela que o nosso próprio corpo produz.
Existe uma diferença importante entre a via oral e a via vaginal que vale conhecer. O Dr. Leonardo Jacobsen, que é uma referência na área e fala bastante sobre esse tema, costuma destacar que a progesterona por via vaginal age de forma mais direta no útero, com um efeito local mais eficiente sobre o endométrio, enquanto a via oral passa antes pelo fígado e pode gerar mais sonolência e menor aproveitamento local. Por isso, em contextos de suporte à implantação e à gestação, a via vaginal costuma ser a preferida por muitos especialistas.
Importante: nada de se automedicar. A escolha da dose, da via e do momento certo de iniciar precisa ser individualizada pelo seu médico, dentro do seu caso.
Outros marcadores que valem pedir na mesma investigação
O BCL6 dificilmente caminha sozinho. Quando existe suspeita de causa endometrial para abortos de repetição ou falha de implantação, faz sentido investigar um conjunto de fatores. Converse com o seu médico sobre incluir:
Endometrite crônica: uma inflamação persistente do endométrio, avaliada pela pesquisa de plasmócitos (CD138) na biópsia.
Adenomiose: investigada por ressonância magnética ou ultrassom especializado.
Endometriose: avaliada clinicamente, por imagem e, quando indicado, por videolaparoscopia.
Perfil de trombofilias: importante em quadros de abortos de repetição.
Função tireoidiana e prolactina: desequilíbrios afetam ovulação e fase lútea.
Avaliação da fase lútea e da progesterona: junto com os dados do seu ciclo.
Há um artigo muito interessante sobre esse conjunto de causas, chamado Endometrial causes of recurrent pregnancy losses: endometriosis, adenomyosis, and chronic endometritis, que reúne justamente essas três condições ligadas ao ambiente uterino. Vale muito a leitura junto ao seu especialista.
O tempo é precioso: investigue
Eu preciso ser bem honesta com você aqui. Uma das coisas que mais me dói de ver na jornada das tentantes é o tempo perdido. Ciclos e ciclos ouvindo que é só relaxar, que vai acontecer na hora certa, enquanto uma causa tratável continua ali, sem ser investigada.
Cada mês conta, você sabe disso. A reserva ovariana muda com o tempo, o desgaste emocional pesa, e a repetição de perdas gestacionais deixa marcas. Muitos vão dizer que investigar cedo é ansiedade, mas você sabe da importância de não perder tempo e correr o risco de ter outro aborto. Se você já teve dois ou mais abortos, ou falhas repetidas de implantação na FIV, procure um especialista que investigue a fundo o fator endometrial, incluindo o BCL6.
E guarde esta frase com você: diagnóstico não é destino. Descobrir um BCL6 positivo, uma endometriose ou uma deficiência de fase lútea não é o fim da sua história. É o começo de um caminho com direção, com tratamento e com chances reais, como aqueles números do estudo mostraram.
Perguntas frequentes
O que significa ter BCL6 positivo?
Significa que existe uma superexpressão dessa proteína inflamatória no seu endométrio, indicando um ambiente uterino inflamado. Esse quadro está fortemente associado à endometriose, às falhas de implantação e aos abortos de repetição, e felizmente costuma responder bem ao tratamento.
BCL6 positivo sempre quer dizer endometriose?
Não é uma regra absoluta, mas a associação é altíssima. No estudo do grupo de Nezhat, 96% das mulheres com BCL6 elevado tiveram endometriose confirmada. Por isso ele é considerado um ótimo preditor dessa doença e um forte indicativo para aprofundar a investigação.
Vale a pena tratar o BCL6 antes de uma FIV?
Os dados sugerem que sim. Mulheres com BCL6 positivo sem tratamento tiveram apenas 7,4% de taxa de nascimento, enquanto as tratadas com medicamento ou cirurgia passaram de 50%. Conversar com o seu especialista sobre tratar a inflamação antes da transferência embrionária pode mudar completamente o seu resultado.
Como a progesterona entra nesse tratamento?
Como o ambiente inflamado gera resistência à progesterona e deficiência de fase lútea, muitas vezes o suporte com progesterona bioidêntica, como o Utrogestan, é incluído na conduta, com preferência frequente pela via vaginal pelo efeito local no útero. A escolha da via e da dose sempre deve ser feita pelo seu médico.
Espero de coração que este post ajude você a olhar para a sua investigação com novos olhos. Saber que existe um marcador como o BCL6, que pode explicar tanta coisa e que tem tratamento, já é um passo enorme. Continue fazendo perguntas, continue observando o seu ciclo e continue buscando um profissional que leve a sua história a sério. Você merece respostas.
Referências
Almquist LD, et al. Endometrial BCL6 testing for the prediction of in vitro fertilization outcomes: a cohort study. Fertility and Sterility, 2017.
Evans-Hoeker E, Lessey BA, et al. Endometrial BCL6 overexpression in eutopic endometrium of women with endometriosis. Reproductive Sciences, 2016.
Likes CE, et al. Medical or surgical treatment before embryo transfer improves outcomes in women with abnormal endometrial BCL6 expression. Journal of Assisted Reproduction and Genetics (JARG), 2019.
Nezhat C, et al. Strong association between endometriosis and symptomatic BCL6 overexpression. Journal of the Society of Laparoendoscopic Surgeons (JSLS).
Cicinelli E, et al. Endometrial causes of recurrent pregnancy losses: endometriosis, adenomyosis, and chronic endometritis.
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