desde 2013

Um blog sobre ciclo menstrual, fertilidade, gestação e maternidade, com base científica e muito acolhimento.

PGP9.5 positivo é endometriose mesmo com ultrassom e ressonância normais?

Por Anne Rebeca Somensi · 20 de julho de 2026

Você fez uma biópsia do endométrio, veio "PGP9.5 positivo" no laudo, e agora a cabeça não para: será que isso confirma que eu tenho endometriose, mesmo com o ultrassom e a ressonância dando tudo normal? O café tá pronto? Então pega ele e encontre um cantinho confortável, porque essa é uma daquelas conversas que precisam de tempo e de calma. A resposta curta é que esse resultado é bem mais nuançado do que ele parece, e eu vou te explicar cada pedacinho.

Mulher consultando laudo anatmopatológico com ilustração do útero e amostra de tecido com PGP9.5 positivo

Eu sei que quando a gente está tentando engravidar e recebe um exame com nome complicado, a tendência é buscar uma resposta fechada. Mas aqui a evidência não permite fechar, e é justamente por isso que vale a pena entender o que esse marcador realmente diz e o que ele não diz.

O que é o PGP9.5 e por que ele aparece numa biópsia do endométrio

PGP9.5 (também escrito PGP 9.5, e conhecido como UCHL1 ou UCH-L1) é a sigla de protein gene product 9.5, que corresponde à proteína ubiquitin C-terminal hydrolase L1. É um marcador pan-neuronal, ou seja, ele cora estruturas do tecido nervoso de forma ampla, tanto fibras mielinizadas quanto não mielinizadas. Na biópsia endometrial, ele é usado na tentativa de detectar fibras nervosas de pequeno diâmetro dentro do endométrio.

Vamos por partes, porque cada detalhe importa. PGP 9.5, PGP9.5, UCHL1 e UCH-L1 são nomes para a mesma proteína, apenas escritos de formas diferentes. Ela é chamada de "pan-neuronal" porque marca o tecido nervoso de maneira genérica, sem distinguir um tipo específico de neurônio. Por isso é um marcador tão usado em patologia quando se quer saber se há fibras nervosas em um tecido.

O exame que você fez não mede um gene diretamente nem dosa anticorpos no seu sangue. Ele é uma imunohistoquímica: usa-se um anticorpo que se liga à proteína PGP9.5 no tecido, e onde ela está presente aparece uma marcação (a "coloração") na lâmina, que o patologista observa ao microscópio. Isso é diferente de medir a expressão de UCHL1 por PCR, que quantifica o RNA mensageiro e não mostra onde a proteína está no tecido. Os dois métodos avaliam coisas relacionadas, mas não idênticas.

Aqui vem um ponto que quase ninguém explica: PGP9.5 não é exclusivo do tecido nervoso e não foi criado especificamente para endometriose. Ele é usado há muito tempo em outros contextos da patologia, e a proteína UCHL1 pode ser expressa também em células que não são neurônios. Isso significa que uma marcação positiva nem sempre representa uma fibra nervosa de verdade, e é por isso que morfologia e localização precisam ser avaliadas com cuidado.

Existem ainda vários outros marcadores neurais que aparecem nesses estudos: neurofilamento (mais específico de fibras mielinizadas), S100, e neurotransmissores/neuropeptídeos como substância P, CGRP, VIP e NPY. Cada um marca uma coisa um pouco diferente. O PGP9.5 é o mais "genérico" de todos, o que o torna sensível, mas também menos específico.

O que significa "PGP9.5 positivo" no seu laudo

"PGP9.5 positivo" significa que a imunohistoquímica encontrou marcação para essa proteína na amostra do seu endométrio. A leitura habitual é que foram detectadas fibras nervosas, mas nem toda marcação corresponde de fato a uma fibra nervosa: o padrão, a morfologia e a camada onde ela apareceu precisam ser avaliados. Um laudo apenas com "positivo", sem esses detalhes, é difícil de interpretar clinicamente.

Deixa eu abrir isso com você. O endométrio tem duas camadas: a camada funcional (mais superficial, que descama na menstruação) e a camada basal (mais profunda, que se regenera). Um dos achados que gerou todo esse interesse foi a descrição de pequenas fibras nervosas na camada funcional de mulheres com endometriose, uma região onde, no endométrio considerado normal, essas fibras costumam ser raras ou ausentes. Por isso o laudo idealmente deveria informar em qual camada ocorreu a marcação. Marcação na camada basal não tem o mesmo peso que marcação na funcional.

Outra coisa que faz toda a diferença: quantidade. Uma única estrutura marcada não significa o mesmo que alta densidade de fibras. Os estudos sérios falam em densidade de fibras por mm², e não em um simples "positivo/negativo". O problema é que não existe um ponto de corte único, validado e universal, e os laboratórios nem sempre usam o mesmo anticorpo, a mesma diluição, a mesma técnica de recuperação antigênica e o mesmo critério para chamar algo de positivo. Isso já te mostra por que dois laudos podem discordar.

Termos como "imunorreatividade focal", "raras fibras", "marcação estromal" ou "positividade inespecífica" apontam justamente para essa zona cinzenta. Marcação no estroma endometrial, por exemplo, precisa ser interpretada com ainda mais cautela, porque nem sempre representa uma fibra nervosa. O patologista que lê essa lâmina idealmente precisa ter familiaridade com o tema, porque contar e classificar fibras nervosas de pequeno diâmetro no endométrio não é trivial.

Existe também a questão da amostra. Uma biópsia feita com Pipelle (aquele cateterzinho fino de consultório) coleta um fragmento pequeno e às vezes superficial, que pode não ser comparável ao material de uma curetagem ou de uma peça de histerectomia. Se a amostra não contém camada funcional suficiente, a interpretação fica prejudicada. E sim, tanto o falso positivo (marcação inespecífica lida como fibra) quanto o falso negativo (fibras presentes, mas não capturadas na amostra) são possíveis. Por isso, revisar as lâminas ou pedir segunda opinião do patologista pode fazer sentido antes de qualquer decisão maior.

Por que fibras nervosas no endométrio foram associadas à endometriose

A hipótese é a seguinte: na endometriose, processos de neurogênese e neuroangiogênese (crescimento de novas fibras nervosas e novos vasos) fariam surgir fibras nervosas de pequeno diâmetro na camada funcional do endométrio, onde normalmente elas quase não existem. Fatores inflamatórios como NGF, substância P e CGRP estariam envolvidos. Só que essas fibras podem ser tanto parte do processo da doença quanto reflexo da inflamação e da dor, e isso ainda não está resolvido.

O endométrio dito normal até possui alguma inervação, principalmente na camada basal. O que chamou atenção dos pesquisadores foi encontrar fibras finas na camada funcional de mulheres com endometriose. A partir daí veio a ideia de usar isso como pista diagnóstica na biópsia.

Aqui entra uma pergunta que ainda não tem resposta fechada: essas fibras causam a dor ou são consequência do ambiente inflamatório? Os estudos mostram que existe associação entre densidade de fibras e sintomas como dismenorreia, dor pélvica e dispareunia em parte das pesquisas, mas é importante a gente lembrar que associação não é o mesmo que causa direta. Há mulheres com endometriose e sem dor que apresentam marcação, e há mulheres com dor sem endometriose confirmada que também apresentam fibras. Ou seja, o quadro é bem menos linear do que a promessa de um exame "que confirma".

Detalhes que interferem e raramente são controlados: o uso de hormônios pode alterar a densidade e a detecção das fibras, a fase do ciclo (proliferativa ou secretora) pode influenciar, e a densidade varia conforme localização e estágio da doença. E, principalmente, a marcação no endométrio eutópico (o endométrio dentro do útero, no lugar dele) não tem o mesmo significado de PGP9.5 dentro de uma lesão de endometriose ectópica. São contextos diferentes que às vezes são tratados como se fossem a mesma coisa.

PGP9.5 positivo confirma endometriose? O que a evidência realmente mostra

Não. Um PGP9.5 positivo isolado não é diagnóstico de endometriose, e um resultado negativo não exclui a doença. O marcador não identifica onde está o foco, não distingue endometriose superficial, profunda ou ovariana, e não define estágio, extensão ou gravidade. A evidência é conflitante: alguns estudos mostraram desempenho altíssimo, outros mostraram desempenho ruim, e as diretrizes atuais não recomendam biomarcadores endometriais para diagnosticar endometriose.

Vou te mostrar de onde vem essa confusão, porque ela é importante para você não sair achando que o exame é mais poderoso do que ele é. Estudos iniciais, como os de Al-Jefout e colaboradores (2007 e 2009), encontraram sensibilidade e especificidade impressionantes para a detecção de fibras nervosas endometriais como forma de diagnosticar endometriose. Isso animou muita gente.

Só que estudos posteriores não reproduziram esse resultado. O trabalho de Leslie e colaboradores (2013) e, principalmente, o estudo duplo-cego de Ellett e colaboradores (2015) questionaram se as fibras nervosas endometriais são mesmo exclusivas da endometriose, encontrando desempenho bem mais modesto e sobreposição entre mulheres com e sem a doença. Zhang e colaboradores (2009) e Yadav e colaboradores (2021) mostraram que fibras nervosas endometriais aparecem também em adenomiose e em leiomiomas, o que reduz a especificidade para endometriose. Já o estudo de Zevallos e colaboradores (2015), avaliando PGP9.5 por imunohistoquímica e por PCR no endométrio eutópico, ilustra que os métodos podem não concordar entre si.

E a revisão de referência? A Cochrane de 2016 (Gupta e colaboradores) analisou biomarcadores endometriais. Para o PGP9.5, depois de excluir um estudo outlier (aquele resultado muito discrepante), encontrou sensibilidade média de 0,96 e especificidade de 0,86 em 7 estudos com 361 mulheres. Parece ótimo, né? Mas a própria revisão foi clara: a heterogeneidade entre os estudos e a baixa qualidade metodológica impediram qualquer recomendação clínica. Ou seja, esses números não podem ser lidos como "96% de chance de eu ter endometriose se der positivo". Sensibilidade e especificidade de estudos pequenos não se traduzem em probabilidade individual.

Tem um detalhe estatístico que vale ouro guardar: o valor preditivo positivo depende da prevalência pré-teste da doença na população estudada. Os estudos foram feitos, em boa parte, em mulheres já encaminhadas para laparoscopia, que têm probabilidade alta de ter endometriose de partida. Aplicar esses números a uma mulher qualquer, com outro perfil de risco, muda tudo. Por isso não dá para pegar a razão de verossimilhança de um estudo e transformar em "sua chance individual".

Sobre as diretrizes, que são o que mais pesa aqui: a ESHRE 2022 não recomenda biomarcadores de tecido endometrial, sangue ou fluidos para diagnosticar endometriose. O uso do PGP9.5 nesse contexto permanece investigacional, não é um teste validado, não é padrão-ouro e não substitui ultrassom, ressonância, avaliação clínica ou laparoscopia. Se alguns médicos e laboratórios ainda oferecem, é justamente porque existe uma hipótese biológica interessante e uma demanda das pacientes, não porque a evidência já validou o exame para a rotina.

Por que os estudos sobre PGP9.5 são tão conflitantes

Os estudos discordam porque usaram técnicas de coleta diferentes (Pipelle, curetagem, histerectomia, que alcançam camadas diferentes), grupos-controle nem sempre comparáveis, anticorpos e critérios de positividade distintos, e nem sempre controlaram hormônios, fase do ciclo, adenomiose ou miomas. Somando viés de seleção, viés de espectro, amostras pequenas e a exclusão de um outlier na metanálise, fica difícil transformar esses achados em um exame confiável para a prática.

Deixa eu detalhar, porque entender isso te protege de decisões precipitadas. A coleta por Pipelle pega uma amostra superficial; curetagem e histerectomia alcançam mais tecido. Se um estudo usou um método e outro usou outro, os resultados já partem de bases diferentes.

O grupo-controle é outro nó. Algumas mulheres classificadas como "sem endometriose" podem ter, na verdade, doença superficial não reconhecida, sobretudo se o diagnóstico de referência foi apenas laparoscopia visual sem confirmação histológica, e se o cirurgião não tinha experiência com lesões sutis. Isso contamina a comparação. Some a isso a variação na experiência do patologista para contar fibras, a ausência de cegamento em vários trabalhos, e a falta de uma definição padronizada de "fibra positiva".

Há ainda a mistura de populações: alguns estudos incluíram mulheres com dor, outros com infertilidade, outros com ambas, e nem sempre controlaram medicamentos hormonais, fase do ciclo, presença de adenomiose ou miomas. Tamanhos de amostra pequenos, possível viés de seleção, viés de espectro e a sensibilidade da metanálise à exclusão daquele outlier completam o quadro. Falta um protocolo internacional padronizado e validação externa robusta em diferentes países e laboratórios. Nada disso significa que a hipótese esteja errada, apenas que ela ainda não amadureceu para virar exame de rotina.

PGP9.5 positivo com ultrassom e ressonância normais: como conciliar

Ultrassom normal e ressonância normal não excluem endometriose, principalmente a endometriose peritoneal superficial, que costuma não aparecer na imagem. Ao mesmo tempo, PGP9.5 positivo não confirma que existe uma lesão de endometriose. Então você fica com duas verdades que precisam conviver: a imagem negativa não descarta doença superficial, e o marcador positivo não fecha diagnóstico. É por isso que sintomas e histórico continuam pesando tanto.

Vamos organizar isso com carinho, porque é aqui que a angústia costuma bater mais forte. A endometriose que mais escapa da imagem é a peritoneal superficial: focos pequenos, espalhados no peritônio, que muitas vezes só são vistos numa laparoscopia. Já o endometrioma (o cisto no ovário) e a endometriose profunda tendem a ser mais visíveis. Por isso, quando falamos de imagem "normal", a pergunta seguinte é: normal em qual exame?

Um ultrassom comum, de rotina, não é a mesma coisa que um ultrassom transvaginal especializado com protocolo para endometriose, feito e interpretado por profissional experiente. A ressonância também precisa de protocolo específico e leitura qualificada. Um exame sem esse cuidado pode simplesmente não ter procurado onde a doença costuma se esconder. Então, antes de concluir qualquer coisa, vale saber com que qualidade a imagem foi feita.

Agora, a parte delicada: é comum ouvir a expressão "endometriose oculta" nesses casos. Ela pode fazer sentido em algumas situações, mas não dá para carimbar automaticamente esse rótulo só porque o PGP9.5 deu positivo. A leitura honesta com a evidência é: a imagem negativa não exclui doença superficial, e o marcador positivo não a confirma. Os dois pedaços de informação levantam a suspeita, aumentam a atenção, mas não fecham o diagnóstico sozinhos.

Diante disso, os caminhos sensatos são: repetir a imagem com um especialista em endometriose se a primeira foi de rotina; considerar ressonância com protocolo quando há suspeita de doença profunda; e discutir laparoscopia apenas quando ela muda a conduta, considerando sintomas, idade, reserva ovariana e desejo reprodutivo. A laparoscopia não é obrigatória só porque um marcador veio positivo. E vale lembrar de outra ponta: uma laparoscopia normal também não exclui totalmente doença microscópica, e existem outros diagnósticos que precisam entrar na conversa quando imagem e avaliação são negativas.

Como a biópsia é feita e como avaliar a qualidade do exame

A biópsia endometrial pode ser feita em consultório com Pipelle, por histeroscopia ou por curetagem. A coleta por Pipelle geralmente dispensa anestesia e dura poucos minutos, com desconforto tipo cólica. A qualidade da interpretação depende de a amostra conter camada funcional suficiente, do anticorpo e da técnica usados, e de o laudo descrever camada, morfologia e densidade, não apenas um "positivo" solto.

Sobre a coleta em si: a Pipelle costuma ser feita no consultório, sem anestesia, e a maioria das mulheres sente algo parecido com uma cólica menstrual mais forte por alguns segundos. Histeroscopia e curetagem são procedimentos maiores. A menstruação em curso pode atrapalhar a coleta e a leitura, então geralmente se escolhe uma fase do ciclo fora do fluxo. E como hormônios (anticoncepcional, progesterona, dienogeste, análogos de GnRH) podem interferir na densidade e detecção das fibras, é importante que seu médico saiba exatamente o que você está usando ao interpretar o resultado. A decisão de suspender ou não qualquer medicação é individual e cabe a quem te acompanha.

Uma dúvida muito comum de quem está em tratamento de fertilidade: dá para aproveitar a mesma amostra? Muitas vezes a mesma biópsia é usada para avaliar outros marcadores, como CD138 (para endometrite crônica), BCL6 ou datação endometrial. Se o material é suficiente para todos, isso depende do tamanho e da qualidade do fragmento, e precisa ser combinado com o laboratório antes.

Na hora de avaliar a qualidade do exame, vale prestar atenção a alguns pontos: o tecido foi fixado e processado adequadamente, foi usado um controle positivo para a imunohistoquímica, a amostra continha camada funcional (a ausência dela prejudica muito a interpretação), e o laudo descreve densidade por área, não só presença. Um "positivo" sem quantificação e sem localização é clinicamente pouco interpretável. Quem deve juntar tudo isso não é uma pessoa só: o patologista descreve o achado, mas quem integra o resultado com seus sintomas, sua imagem e seu objetivo reprodutivo é o ginecologista, idealmente com experiência em endometriose ou em reprodução humana.

Sobre custo, disponibilidade e cobertura no Brasil, eu prefiro não te dar número, porque isso varia bastante entre laboratórios e regiões, e eu não vou inventar um dado para você. O melhor é confirmar diretamente com o laboratório e com o seu convênio. E a pergunta mais importante de todas antes de fazer: esse resultado vai efetivamente mudar a minha conduta? Se a resposta for não, talvez ele traga mais ansiedade do que direção.

PGP9.5, dor pélvica e sintomas: o que dá para dizer

Parte dos estudos encontra associação entre densidade de fibras nervosas endometriais e sintomas como dismenorreia, dor pélvica crônica e dispareunia profunda, mas a relação não é constante nem específica. Existem mulheres com dor intensa e PGP9.5 negativo, e mulheres assintomáticas com marcação. O marcador não distingue dor de endometriose de dor por outras causas, e melhorar a dor não significa que a endometriose foi eliminada.

O estudo de Bahat e colaboradores (2025) e outros trabalhos exploram a relação entre fibras endometriais, hormônios e dor. A hipótese envolve sensibilização do sistema nervoso, tanto periférica quanto central. Só que dor pélvica crônica é multifatorial: síndrome miofascial, bexiga dolorosa, síndrome do intestino irritável, neuropatias e adenomiose ou miomas dolorosos podem gerar quadros parecidos. O PGP9.5 não separa essas causas.

Sobre acompanhar tratamento: alguns estudos, como o de Tokushige e colaboradores (2008), mostram que tratamento hormonal reduz fibras nervosas no endométrio. Isso é interessante do ponto de vista da biologia, mas atenção a dois pontos. Primeiro, reduzir fibras não é o mesmo que curar a endometriose ou eliminar as lesões. Segundo, o marcador não está validado para monitorar resposta ao tratamento nem para prever recorrência da dor. Melhora da dor com hormônio é bem-vinda, mas não vira prova de que a doença sumiu.

PGP9.5 e infertilidade: por que a extrapolação é arriscada

Não existe evidência sólida ligando PGP9.5 positivo diretamente à infertilidade, à falha de implantação, à gravidez bioquímica ou ao aborto recorrente. Boa parte dos estudos foi feita em mulheres com dor, não com foco em fertilidade, e não controlou idade, embriões euploides e outros fatores. O marcador não prevê resultado de FIV, não prevê chance de bebê no colo e não deve, sozinho, mudar protocolo de transferência ou justificar adiar um ciclo.

Essa parte é a que mais gera decisões apressadas, então vou ser bem clara com você sobre o que a evidência mostra e o que ela não mostra. Os estudos diagnósticos de PGP9.5 foram desenhados principalmente para o desfecho dor e diagnóstico, não para desfechos reprodutivos. Extrapolar um marcador de estruturas neurais, relacionado à dor, para explicar dificuldade de engravidar, qualidade dos óvulos, formação de blastocistos ou receptividade endometrial é dar um salto que a ciência ainda não deu.

Não há estudos robustos mostrando que PGP9.5 positivo cause falha de implantação, gravidez bioquímica ou abortos de repetição, controlando idade, embriões euploides e os demais fatores de infertilidade. Também não há evidência de que ele preveja implantação, gravidez clínica ou nascido vivo numa FIV. Por isso, um resultado positivo isolado não deveria mudar o protocolo de transferência embrionária, nem justificar tratar antes da FIV, descartar embriões ou pensar em doação de gametas.

E sim, é totalmente possível ter PGP9.5 positivo e engravidar normalmente. O resultado não permite calcular a sua chance individual de gravidez. Se a endometriose de fato existir e estiver impactando sua fertilidade, o que orienta a conduta é o quadro clínico completo, não um marcador não validado.

Relação do PGP9.5 com outras condições e outros marcadores

PGP9.5 pode ser positivo em adenomiose e em miomas, e pode refletir dor ou inflamação independentemente da causa, porque UCHL1 também pode ser expresso fora de fibras nervosas. Ele não é o mesmo que BCL6, CD138 ou CA-125: cada um avalia uma hipótese diferente. Um resultado positivo em um não confirma o outro, e nenhum deles substitui a avaliação clínica integrada.

Vale detalhar as diferenças, porque é fácil confundir. O tema dos marcadores endometriais costuma vir todo junto na cabeça da tentante, mas eles não medem a mesma coisa:

Marcador

O que avalia

Contexto principal

PGP9.5 / UCHL1

Fibras nervosas (marcador neural)

Suspeita de endometriose, dor

BCL6

Sinalização inflamatória / resistência à progesterona

Falha de implantação, associação com endometriose

CD138

Plasmócitos (inflamação)

Endometrite crônica

CA-125

Marcador sérico (sangue)

Marcador inespecífico, não diagnóstico isolado

Sobre o BCL6 especificamente: ele está relacionado à sinalização inflamatória e à resistência à progesterona, enquanto o PGP9.5 é usado como marcador de estruturas neurais. São hipóteses diferentes sobre o endométrio. Um BCL6 positivo pode aumentar a suspeita geral de um ambiente endometrial alterado, mas não confirma que o PGP9.5 representa endometriose, e vice-versa. Um resultado não valida o outro. Se você quiser entender esse outro marcador com calma, dá uma olhada no post sobre BCL6 positivo e o marcador por trás de abortos de repetição, que trata justamente dessa outra frente.

Ainda vale registrar: fibras nervosas endometriais aparecem também em adenomiose (que muitas vezes não é vista na imagem) e em leiomiomas, o resultado pode ser influenciado por inflamação, trauma da coleta ou cirurgia prévia, e há uma teia de fatores envolvidos (NGF, VEGF, mastócitos, macrófagos, neuroinflamação) que ainda está sendo estudada. Nada disso torna o PGP9.5 um veredito.

O que fazer depois de um resultado de PGP9.5 positivo

O primeiro passo é revisar o laudo completo: em qual camada ocorreu a marcação, se houve quantificação de densidade, qual anticorpo e critério foram usados e se a amostra tinha camada funcional suficiente. Depois, considerar imagem com especialista em endometriose, integrar sintomas e histórico, e só pensar em laparoscopia ou tratamento quando isso realmente mudar a conduta e fizer sentido para os seus objetivos.

Na prática, o caminho tranquilo é este. Peça ao laboratório as informações que faltam: se encontraram fibras nervosas ou apenas imunorreatividade para UCHL1, em qual camada, se houve quantificação, qual anticorpo e ponto de corte foram usados, e se a amostra continha camada funcional. Vale pedir revisão das lâminas por patologista com experiência no tema. Um laudo enriquecido muda muito a interpretação.

Em seguida, revise a imagem. Se o ultrassom foi de rotina, repetir com ultrassom transvaginal especializado com protocolo para endometriose pode revelar coisas que passaram batido. A ressonância com protocolo é útil sobretudo na suspeita de doença profunda. Quando o quadro é complexo, encaminhar para um centro especializado costuma ser o melhor investimento.

Sobre operar: a decisão de fazer laparoscopia não deve depender só do marcador. Ela pesa sintomas, idade, reserva ovariana, desejo reprodutivo e o que a cirurgia efetivamente pode oferecer, lembrando que a laparoscopia tem riscos, inclusive para a reserva ovariana. Cirurgia para doença mínima ou superficial não melhora a fertilidade em todos os casos, e nenhuma conduta deve ser tomada apenas para "negativar" um biomarcador não validado.

Para quem está tentando engravidar, ainda vale investigar as outras causas de infertilidade antes de atribuir tudo ao PGP9.5: avaliar adenomiose, cavidade uterina, trompas, espermograma e fatores embrionários. Um marcador isolado não justifica adiar uma transferência, descartar embriões ou partir para doação de gametas. E se você optar por não fazer nada além de acompanhar, isso também é uma escolha legítima, discutida com seu médico. Antes de qualquer cirurgia ou supressão hormonal prolongada, uma segunda opinião com quem consiga integrar imagem, sintomas, fertilidade e patologia quase sempre vale a pena.

Uma orientação prática que ajuda muito nesse processo: comece a registrar de forma organizada os seus sinais de fertilidade, o padrão do seu muco cervical, a temperatura basal, quando aparece a dor no ciclo e como ela se comporta. Registre também os resultados dos seus exames e as medicações em uso. Esses dados, reunidos e datados, chegam prontos pro seu médico e transformam uma consulta confusa numa conversa objetiva sobre a sua situação real.

Existe tratamento para PGP9.5 positivo?

Não existe um tratamento validado com o objetivo de "negativar" o PGP9.5, porque ele não é um diagnóstico confirmado nem um alvo terapêutico estabelecido. Hormônios como dienogeste, anticoncepcional contínuo e análogos de GnRH podem reduzir fibras nervosas no endométrio em estudos, mas reduzir a marcação não equivale a curar endometriose nem garante melhora de fertilidade. Qualquer tratamento deve tratar um diagnóstico, não um marcador isolado.

Deixa eu separar o que trata o quê, porque isso costuma virar um nó. Tratamentos hormonais foram estudados sobretudo para dor e para redução das fibras, e a lógica ali é aliviar sintoma e diminuir atividade da doença, não "consertar o exame". Não há evidência de que supressão hormonal antes da FIV melhore resultados especificamente em mulheres PGP9.5 positivas, nem de que tratamento hormonal melhore a fertilidade espontânea com base apenas nesse marcador. E supressão prolongada em quem quer engravidar tem um custo óbvio: adia a tentativa.

Cirurgia não "remove o marcador" do endométrio e não é indicada apenas por um PGP9.5 positivo. Sobre anti-inflamatórios, dieta, suplementos ou acupuntura modificarem o PGP9.5, não há evidência que sustente isso como objetivo de tratamento, ainda que algumas dessas abordagens tenham seu papel no manejo da dor e do bem-estar. Não existe também um tratamento validado que tenha como alvo "a neurogênese" ou "a neuroinflamação" no endométrio com desfecho reprodutivo comprovado.

O ponto que eu mais quero que você leve daqui: falta estudo com desfecho de nascido vivo em pacientes PGP9.5 positivas. Por isso, o risco de tratar demais com base num biomarcador não validado é real, seja com cirurgia desnecessária, seja com meses de supressão hormonal que apenas adiam a gravidez. O tratamento sempre deve ser individualizado conforme a sua prioridade for a dor ou a gravidez, e conforme o diagnóstico que de fato se sustente. E eu não vou te passar dose nem protocolo aqui, porque isso é decisão médica, feita para o seu caso.

Perguntas frequentes sobre PGP9.5 positivo

PGP9.5 positivo confirma endometriose?

Não. PGP9.5 positivo pode sugerir a presença de fibras nervosas no endométrio, mas não confirma endometriose de forma isolada. As diretrizes atuais não recomendam biomarcadores endometriais para diagnóstico, e o exame permanece investigacional.

PGP9.5 negativo exclui endometriose?

Não. Um resultado negativo não descarta endometriose, principalmente a peritoneal superficial, que pode não ser capturada na biópsia e frequentemente não aparece no ultrassom nem na ressonância.

PGP9.5, PGP 9.5 e UCHL1 são a mesma coisa?

Sim. PGP9.5, PGP 9.5, UCHL1 e UCH-L1 são nomes diferentes para a proteína ubiquitin C-terminal hydrolase L1, um marcador pan-neuronal usado na imunohistoquímica.

Ultrassom normal significa que eu não tenho endometriose?

Não necessariamente. Ultrassom e ressonância normais não excluem endometriose, especialmente a superficial. Vale repetir a imagem com ultrassom transvaginal especializado com protocolo para endometriose antes de concluir qualquer coisa.

PGP9.5 positivo causa infertilidade ou falha de implantação?

Não há evidência sólida ligando PGP9.5 positivo diretamente à infertilidade, falha de implantação ou aborto de repetição. Boa parte dos estudos foi feita para dor, e o marcador não prevê resultado de FIV nem chance de bebê no colo.

PGP9.5 positivo é indicação de cirurgia ou de FIV com supressão?

Não isoladamente. Nenhuma decisão de laparoscopia, supressão hormonal ou adiamento de transferência embrionária deve se basear apenas no PGP9.5. A conduta depende de sintomas, idade, reserva ovariana, outros fatores de infertilidade e dos seus objetivos.

PGP9.5 e BCL6 avaliam a mesma coisa?

Não. BCL6 está relacionado à sinalização inflamatória e à resistência à progesterona, e o PGP9.5 é um marcador de estruturas neurais. São hipóteses diferentes, e um resultado positivo não confirma o outro.

É possível ter PGP9.5 positivo e engravidar normalmente?

Sim. É perfeitamente possível ter PGP9.5 positivo e engravidar de forma natural. O resultado não permite calcular a sua chance individual de gravidez.

Existe tratamento para negativar o PGP9.5?

Não existe tratamento validado com o objetivo de negativar o marcador. Hormônios podem reduzir fibras nervosas em estudos, mas isso não equivale a curar endometriose nem a melhorar fertilidade. Trata-se o diagnóstico, não o exame.

Eu sei que ler tudo isso e não sair com um "sim" ou um "não" fechado pode ser frustrante, meu amor. Mas às vezes o presente mais valioso que a ciência te dá é justamente te proteger de uma decisão grande tomada em cima de um exame que ainda não amadureceu. Um PGP9.5 positivo é uma peça do quebra-cabeça, não o quebra-cabeça inteiro. Leva esse laudo, com as perguntas que a gente listou aqui, para um profissional que consiga olhar você por inteiro: seus sintomas, sua imagem, sua fertilidade e a sua história. É desse olhar completo que sai a conduta que faz sentido pra você.

Fontes científicas consultadas

  1. Becker CM et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open. 2022. DOI: 10.1093/hropen/hoac009

  2. National Institute for Health and Care Excellence. Endometriosis: diagnosis and management. NICE guideline NG73. Atualizada em 2024. https://www.nice.org.uk/guidance/ng73/chapter/recommendations

  3. Gupta D et al. Endometrial biomarkers for the non-invasive diagnosis of endometriosis. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2016. DOI: 10.1002/14651858.CD012165

  4. May KE et al. Endometrial alterations in endometriosis: a systematic review of putative biomarkers. Human Reproduction Update. 2011. DOI: 10.1093/humupd/dmr013

  5. Al-Jefout M et al. A pilot study to evaluate the relative efficacy of endometrial biopsy and full curettage in making a diagnosis of endometriosis by the detection of endometrial nerve fibers. American Journal of Obstetrics and Gynecology. 2007. DOI: 10.1016/j.ajog.2007.04.032

  6. Al-Jefout M et al. Diagnosis of endometriosis by detection of nerve fibres in an endometrial biopsy: a double blind study. Human Reproduction. 2009. DOI: 10.1093/humrep/dep275

  7. Leslie C et al. Is the detection of endometrial nerve fibers useful in the diagnosis of endometriosis? International Journal of Gynecological Pathology. 2013. DOI: 10.1097/PGP.0b013e31825b0585

  8. Ellett L et al. Are endometrial nerve fibres unique to endometriosis? A prospective case-control study of endometrial biopsy as a diagnostic test for endometriosis in women with pelvic pain. Human Reproduction. 2015. DOI: 10.1093/humrep/dev259

  9. Zhang X et al. Endometrial nerve fibers in women with endometriosis, adenomyosis, and uterine fibroids. Fertility and Sterility. 2009. DOI: 10.1016/j.fertnstert.2009.05.016

  10. Zevallos HB-V et al. Detection of the pan neuronal marker PGP9.5 by immunohistochemistry and quantitative PCR in eutopic endometrium from women with and without endometriosis. Archives of Gynecology and Obstetrics. 2015. DOI: 10.1007/s00404-014-3379-1

  11. Tokushige N et al. Effects of hormonal treatment on nerve fibers in endometrium and myometrium in women with endometriosis. Fertility and Sterility. 2008. DOI: 10.1016/j.fertnstert.2007.08.074

  12. Yadav G et al. Detection of nerve fibers in the eutopic endometrium of women with endometriosis, uterine fibroids and adenomyosis. Obstetrics & Gynecology Science. 2021. DOI: 10.5468/ogs.21114

  13. Bahat PY et al. Influence of endometrial nerve fibers and hormones on pain in women with endometriosis. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology. 2025. DOI: 10.1016/j.ejogrb.2025.113950

  14. NCBI Gene. UCHL1 ubiquitin C-terminal hydrolase L1, Gene ID 7345. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/gene/7345

Comentários

Seja a primeira a comentar neste post.

Deixe seu comentário

Seu comentário aparece após aprovação. O e-mail nunca é publicado.