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Spermmaxxing: gelo nos testículos, alho e suplementos melhoram mesmo a fertilidade masculina?

Por Anne Rebeca Somensi · 8 de agosto de 2026

Demorou, mas finalmente os homens entraram na conversa da fertilidade. Só que entraram do jeito mais internet possível: colocando gelo nos testículos, comendo alho cru e montando uma prateleira de suplementos para "maximizar" o esperma. E aqui entre nós, depois de anos vendo a gente investigar ciclo, ovulação, trompas, endométrio e refazer espermograma dos parceiros implorando, tem até um lado engraçado de ver o assunto virar trend masculina.

Homem questionando sobre métodos para melhorar fertilidade com gelo, alho e suplementos como zinco, coQ10 e ômega 3

Mas eu sei por que você chegou aqui. Você provavelmente já virou do avesso a sua própria fertilidade e agora está olhando para o lado e pensando: e ele? Será que essas coisas todas que aparecem no feed dele funcionam? Vamos por partes, porque esse assunto tem muitos detalhes, e eu quero organizar tudo para você conseguir enxergar o quadro inteiro (e, de quebra, saber o que vale a pena mostrar pro parceiro).

O que é spermmaxxing, afinal?

Spermmaxxing é uma trend de internet, não um diagnóstico nem um protocolo médico. É um ramo da cultura "maxxing" (otimizar tudo: corpo, sono, hormônios) aplicada ao esperma, em que homens tentam "maximizar" contagem, volume do ejaculado, testosterona, "qualidade" e fertilidade com hacks como resfriamento dos testículos, alho cru, ashwagandha, maca, shilajit e stacks de suplementos. Documenta uma ansiedade cultural, não uma eficácia comprovada.

Em 2026 isso ganhou nome e virou febre. A Healthline publicou em junho uma matéria específica sobre o fenômeno, a GQ mapeou homens tomando suplementos e se expondo ao frio, a BBC e a CNN Brasil repercutiram por aqui, e em agosto o Guardian incluiu o spermmaxxing entre as grandes tendências de wellness do ano. Repara numa coisa importante: essas reportagens documentam que a trend existe. Elas não são prova de que os hacks funcionam.

E tem um detalhe que embaralha tudo: a internet trata contagem de espermatozoides, volume de sêmen, testosterona, libido, ereção e fertilidade como se fossem a mesma coisa. Não são. Mais sêmen não significa mais espermatozoides. Mais espermatozoides não significam automaticamente mais chance de gravidez. Testosterona alta não significa fertilidade alta (calma que a gente chega nessa, porque tem um plot twist aí). São eixos diferentes, e o marketing da "otimização" vive de confundir todos eles.

Finalmente os homens entraram na conversa da fertilidade

Fator masculino está associado em cerca de metade dos casais que não conseguem engravidar, segundo a EAU, e é o fator exclusivamente masculino em torno de 20% dos casos. As diretrizes de AUA/ASRM e EAU são claras: os dois parceiros devem ser investigados em paralelo, ao mesmo tempo. Não existe "primeiro a mulher, depois, se sobrar, ele".

Aqui vale um cuidado que faço questão de deixar registrado: fator masculino associado em 50% dos casais não quer dizer que "50% dos homens são inférteis". Muitas vezes o fator masculino aparece junto de um fator feminino, e é o conjunto do casal que conta.

Agora, a parte que mexe comigo. A própria OMS reconhece que a mulher costuma carregar o estigma da infertilidade independentemente de quem tenha o fator. Você sabe do que estou falando. Quantas mudanças a gente faz, quantos exames, quantas suplementações, quantos meses medindo temperatura basal e mapeando muco cervical, antes de alguém sugerir um espermograma pro parceiro? Se o spermmaxxing tem um mérito, é esse: redistribuir a responsabilidade reprodutiva, que sempre foi despejada nas nossas costas.

O problema não é o homem se cuidar. É transformar fertilidade em performance, em prova de masculinidade, em mais um campeonato de biohacking. Cuidar da saúde reprodutiva é ótimo. Virar refém de uma obsessão por "otimizar o esperma" é outra história completamente diferente.

Espermograma sem misticismo

O espermograma é o exame que analisa o sêmen e olha vários parâmetros: volume do ejaculado, concentração (espermatozoides por mililitro), número total de espermatozoides, motilidade total e progressiva (quantos se movem e quantos avançam de fato), morfologia (formato) e, quando pertinente, vitalidade. Ele é a base da avaliação masculina, mas isoladamente não separa homem fértil de infértil.

Vamos desfazer confusões comuns. Sêmen e espermatozoides não são a mesma coisa: o sêmen é o líquido, os espermatozoides são as células que estão nele. Um ejaculado volumoso pode ter baixa concentração, e um volume pequeno pode ter boa concentração. Ou seja, "quantidade visível" não é medida de fertilidade, por mais que a internet insista nisso.

Um parâmetro ruim num único exame não confirma infertilidade, e um exame normal não garante fertilidade. Os valores variam bastante entre coletas (por abstinência, estresse, febre recente, tempo até o laboratório), por isso um resultado alterado muitas vezes precisa ser repetido antes de qualquer conclusão. E aqui vai a trava mais importante de todas, que vem direto da EAU: o espermograma sozinho não distingue férteis de inférteis. Os limites de referência da OMS (na 6ª edição do manual) são estatísticos, não uma fronteira mágica onde de um lado está "fértil" e do outro "infértil".

Sobre os testes caseiros que vendem por aí: eles até dão uma pista de concentração, mas não substituem um espermograma completo feito em laboratório, que olha o conjunto dos parâmetros. Quando procurar um urologista ou andrologista? Sempre que houver resultado alterado que se confirme, ou quando o casal está há um tempo tentando sem sucesso. Falo mais disso lá embaixo.

Existe mesmo uma "crise dos espermatozoides"?

Há dados populacionais sugerindo queda na concentração e na contagem de espermatozoides ao longo das últimas décadas. A metanálise de Levine e colaboradores, olhando amostras coletadas entre 1973 e 2018, encontrou uma tendência de declínio relevante. Mas "queda de contagem média na população" não é a mesma coisa que "queda igual de fertilidade em cada homem individual", e ninguém sabe dizer que os homens estarão inférteis em determinada data.

Deixa eu explicar por que a cautela. Esse tipo de estudo é uma meta-regressão: junta muitos trabalhos diferentes, de populações diferentes, com métodos de laboratório que mudaram ao longo dos anos. Isso traz limitações reais de comparação. A tendência existe e merece atenção, mas transformar "sperm count decline" em "spermageddon" é ir muito além do que os dados mostram.

O que provavelmente contribui para essa tendência? Obesidade, tabagismo, sedentarismo, calor excessivo e exposições ambientais aparecem como possíveis fatores, cada um com um nível diferente de evidência. Repara que isso é bem diferente de dizer "coma alho e resolva a crise mundial do esperma".

Os famosos "90 dias"

A produção de espermatozoides (espermatogênese) e a maturação deles levam semanas, então mudanças de estilo de vida não aparecem no espermograma de um dia para o outro. Por isso costuma-se falar em reavaliar depois de cerca de três meses. Mas isso é uma janela prática de reavaliação, não um "reset" que produz esperma novo e perfeito num prazo fechado.

Essa é uma das coisas que a trend mais distorce. Vende-se a ideia de que em 90 dias você "regenera" completamente sua fertilidade. Estilo de vida ajuda, sim, no que é modificável, mas não apaga genética, obstrução, varicocele, doença hormonal, criptorquidia (testículo que não desceu) ou dano testicular. Se a causa é estrutural, nenhuma quantidade de alho e banho gelado resolve em três meses.

E tem a distinção que eu repito até cansar: melhorar um número no espermograma não é o mesmo que aumentar a chance de bebê no colo. Parâmetro seminal melhor é bem-vindo, mas o desfecho que importa de verdade é gravidez e criança nascida, e nem sempre um caminha junto do outro.

Gelo nos testículos: faz sentido ou é loucura?

Evitar aquecer demais os testículos faz sentido biológico, porque eles funcionam abaixo da temperatura do corpo e dependem dessa termorregulação. Mas daí a colocar gelo diretamente no saco escrotal vai uma distância enorme. Uma revisão sistemática de resfriamento escrotal encontrou evidência insuficiente para concluir que isso traz benefício de fertilidade, e frio intenso ainda pode causar lesão local.

Deixa eu montar o raciocínio direitinho, porque a lógica da trend tem uma armadilha. É verdade que aquecimento intenso e repetido dos testículos pode piorar temporariamente alguns parâmetros seminais. Só que "evitar superaquecer" e "congelar" são conclusões completamente diferentes. Como diz a frase que resume tudo: evitar aquecer demais os testículos faz sentido; congelá-los não é a conclusão lógica.

Outra coisa: nem toda fonte de calor tem a mesma evidência por trás. Sauna e jacuzzi, calor ocupacional (quem trabalha perto de fornos, por exemplo), longos períodos sentado, laptop no colo, banco de carro aquecido e roupa muito apertada não são exposições equivalentes. Uma revisão de 2026 sobre roupas encontrou temperatura escrotal maior com peças apertadas e diferenças modestas em alguns parâmetros, mas os dados prospectivos não mostraram diferença clara em gravidez. Ou seja, cueca folgada é um conselho razoável e barato; banho de gelo nos testículos não é tratamento comprovado de nada.

Alho, antioxidantes e a prateleira de suplementos

Não existe evidência clínica robusta de que alho cru, maca, ashwagandha, shilajit ou qualquer suplemento isolado aumente a chance de bebê no colo. Zinco, selênio, vitaminas C e E, folato, CoQ10, L-carnitina, licopeno e ômega-3 têm plausibilidade antioxidante e podem fazer sentido em casos de deficiência real, mas as diretrizes atuais não recomendam nenhum agente específico de rotina, e a evidência sobre desfecho de gravidez é frágil e conflitante.

Vale entender a lógica por trás de tudo isso. A ideia é que o estresse oxidativo (excesso de radicais livres, os famosos ROS) pode danificar espermatozoides, e antioxidantes neutralizariam isso. Bonito na teoria. Na prática, o quadro é mais bagunçado.

A AUA/ASRM diz que a utilidade clínica de suplementos e antioxidantes é questionável e que não há dados adequados para recomendar agentes específicos. A EAU não recomenda antioxidantes de rotina na infertilidade sem causa definida. Aí entra o duelo dos estudos: uma revisão Cochrane de 2022 sugeriu um possível benefício em criança nascida, mas com certeza de evidência muito baixa, e o resultado enfraquece quando se retiram os estudos de alta chance de viés. Já o MOXI, um ensaio clínico randomizado multicêntrico, testou uma combinação antioxidante e não encontrou melhora em parâmetros seminais, em fragmentação de DNA nem em criança nascida.

Então não dá para gritar "antioxidantes funcionam" e nem "antioxidantes nunca funcionam". A resposta é o desconfortável "depende, e a evidência ainda é fraca". O que eu não faria de jeito nenhum é gastar fortuna numa pilha de frascos comerciais antes de saber se existe algum problema. E sobre o alho cru especificamente: por mais que ele seja um alimento ótimo, não há base clínica para tratá-lo como tratamento de fertilidade masculina.

Spermmaxxing: hype ou faz sentido?

Resumindo o que tem evidência e o que é hype: evitar calor excessivo, parar de fumar, reduzir álcool em excesso, perder peso quando há obesidade e manter atividade física são as apostas mais sólidas. Gelo direto nos testículos, alho cru como remédio, stacks de suplementos sem deficiência comprovada, testosterona e anabolizantes e abstinência prolongada vão de "sem benefício comprovado" a "pode atrapalhar". Veja o mapa:

Prática

Faz sentido biológico?

Evidência no sêmen

Evidência em gravidez/nascido vivo

Cuidado

Gelo nos testículos

Parte de uma verdade (calor faz mal), mas exagera

Insuficiente

Sem base

Frio intenso pode lesar

Evitar calor excessivo (sauna, cueca apertada, laptop)

Sim

Modesta e variável

Sem diferença clara em estudos prospectivos

Conselho barato e razoável

Antioxidantes/suplementos

Plausível (estresse oxidativo)

Conflitante

Muito incerta (Cochrane fraca, MOXI negativo)

Sem agente recomendado de rotina

Alho cru

Alimento saudável, sem mecanismo específico

Sem dado robusto

Sem base

Não é tratamento

Perda de peso (em obesidade)

Sim

Concentração e contagem aumentaram em estudo

Não generalizável a todos

Só quando há obesidade

Exercício físico

Sim

Favorável no contexto de saúde metabólica

Indireta

Sem excessos extremos

Parar de fumar

Sim

Favorável

Recomendado por diretrizes

Sem contraindicação

Reduzir álcool em excesso

Sim

Favorável

Recomendado por diretrizes

Foco no consumo alto/crônico

Testosterona/anabolizantes

Ao contrário: piora

Pode suprimir a produção

Pode reduzir chance

Não usar com desejo reprodutivo

Abstinência prolongada

Não como estratégia

Aumenta alguns números por ejaculado

Sem ganho de fecundidade

Pode até atrapalhar o timing

O que realmente merece mais atenção

Se existe um "spermmaxxing" com respaldo, ele mora no básico e nada glamouroso: parar de fumar, cuidar do peso e da saúde metabólica, manter atividade física, reduzir álcool em excesso, evitar drogas recreativas e anabolizantes, dormir bem, tratar doenças crônicas, revisar exposições ocupacionais e ambientais, evitar calor excessivo e checar medicamentos com potencial reprodutivo. A EAU associa obesidade, sedentarismo, tabagismo e alto consumo de álcool a pior qualidade espermática e recomenda justamente melhorar o estilo de vida.

Um estudo que eu achei bem interessante: Andersen e colaboradores acompanharam 56 homens com obesidade e viram que a perda de peso aumentou a concentração e a contagem de espermatozoides, e essa melhora se manteve nos que sustentaram a perda com exercício. Só que dois cuidados aqui. Primeiro, esse resultado é de homens com obesidade, não dá para prometer o mesmo a quem já tem peso adequado. Segundo, isso não transforma medicações para emagrecer em "tratamento de fertilidade". É saúde metabólica ajudando, dentro de um contexto específico.

Percebe o padrão? As coisas que mais mexem o ponteiro não são as mais vendáveis. Não tem embalagem bonita, não vira reels chamativo. Mas é o que as diretrizes de verdade recomendam.

Testosterona: o plot twist do spermmaxxing

Aqui está a maior ironia da trend: mais testosterona não significa mais espermatozoides. Testosterona vinda de fora (reposição ou anabolizantes) pode suprimir os hormônios LH e FSH, derrubar a testosterona lá dentro do testículo (a intratesticular, que é a que importa para produzir espermatozoide) e reduzir ou até interromper a produção de esperma. AUA/ASRM e EAU são categóricas: testosterona não deve ser usada para tratar infertilidade nem em homem que deseja ser pai.

Deixa eu botar isso em palavras simples, porque é surreal de bom. O homem entra na academia, ouve que testosterona é virilidade, começa a usar hormônio ou anabolizante pensando que está "maximizando" a fertilidade... e faz exatamente o contrário. Talvez a maior pegadinha do spermmaxxing seja tentar aumentar a fertilidade aumentando justamente um hormônio que, quando vem de fora, pode desligar a fábrica.

Anabolizantes podem levar a oligozoospermia (poucos espermatozoides) ou azoospermia (nenhum no ejaculado). A recuperação depois de parar existe em muitos casos, mas não tem prazo garantido, e cada homem responde de um jeito. Nada disso deve ser suspenso, iniciado ou "corrigido" por conta própria: isso é conversa para um andrologista, tá?

"Guardar esperma" para o período fértil ajuda?

Não. Guardar esperma acumulando dias sem ejacular não aumenta a chance de gravidez. A ASRM afirma que a eficiência reprodutiva é alta com relações a cada 1 a 2 dias na janela fértil, e que casais não devem ser orientados a restringir a frequência. Abstinência longa até aumenta alguns números por ejaculado, mas isso não significa espermatozoides mais capazes de fecundar.

Existe uma confusão aqui que vale desfazer. Antes de fazer o espermograma, o laboratório pede alguns dias de abstinência só para padronizar a coleta. Isso é uma regra técnica do exame. Não é uma estratégia de fertilidade para o dia a dia. Para engravidar, o que ajuda é ter relações com boa frequência no período fértil, e é aí que mapear o ciclo com o método sintotermal e a temperatura basal entra pra acertar o timing.

Em homens com sêmen normal, ejacular todo dia não costuma derrubar densidade nem motilidade de forma relevante. E toda aquela onda de "no-fap" e retenção seminal não é estratégia comprovada de fertilidade. Volume visível de sêmen também não é medida de fecundidade, então parar de olhar para a "quantidade" já é meio caminho andado para menos ansiedade.

Não é tudo a mesma coisa

Se tem uma coisa que a trend embaralha e eu quero deixar cristalina, é que esses termos não são sinônimos:

Termo

O que é

Sêmen / volume

O líquido do ejaculado; volume alto não significa mais espermatozoides

Concentração

Quantos espermatozoides por mililitro

Contagem total

Número total de espermatozoides no ejaculado inteiro

Motilidade

Quantos se movem, e quantos avançam de fato (progressiva)

Morfologia

Formato dos espermatozoides

Testosterona

Hormônio; alta não significa fertilidade alta

Libido

Desejo sexual; independe da produção de espermatozoides

Fertilidade

Capacidade real de gerar uma gravidez; é o desfecho que importa

Quando sair do TikTok e investigar de verdade

A regra geral é investigar o casal depois de 12 meses de relações regulares sem contracepção sem gravidez, e antes disso quando a idade da mulher ou a história clínica justificarem. Homem e mulher devem ser avaliados ao mesmo tempo. A avaliação masculina começa com história reprodutiva e um ou mais espermogramas, confirmando alterações quando necessário, e segue com exame físico e outros exames só conforme a indicação.

Na conversa com o médico entram coisas que nenhum stack de suplemento resolve: história sexual, medicamentos em uso, uso de anabolizantes, doenças, cirurgias, traumas, infecções, quimio ou radioterapia no passado, criptorquidia e exposições diversas. Hormônios (FSH, LH, testosterona), genética, exames de imagem e outros testes entram apenas quando há indicação, não como pacote automático.

Duas coisas importantes. Primeira: varicocele, obstrução e doenças hormonais podem exigir tratamento específico, e "otimizar estilo de vida" nunca substitui diagnosticar uma causa tratável. Segunda: o teste de fragmentação de DNA espermático (SDF/DFI) não deve virar exame de rotina inicial para todo homem. A AUA/ASRM não o recomenda no começo da investigação, embora existam cenários específicos em que ele faça sentido, sempre com indicação.

Quando procurar avaliação masculina

Situação

O que fazer

12 meses tentando sem gravidez

Investigar o casal, os dois em paralelo

Idade feminina mais avançada ou história clínica

Não esperar 12 meses; procurar antes

Uso atual ou passado de anabolizantes/testosterona

Falar com andrologista o quanto antes

Histórico de criptorquidia, trauma, cirurgia, infecção, quimio/radio

Avaliação masculina desde o início

Espermograma alterado confirmado

Consulta com urologista/andrologista

E quando o casal está na FIV ou ICSI?

A ICSI, técnica em que um único espermatozoide é injetado diretamente no óvulo, contorna várias limitações de número e motilidade, mas isso não torna a avaliação masculina irrelevante. Mesmo em tratamento, entender a causa por trás do fator masculino continua importante, e não se deve atribuir automaticamente falha de implantação ou aborto ao esperma sem investigação.

Aqui pisando em ovos com carinho, porque sei que quem já perdeu uma gestação ou teve embrião que não implantou fica caçando explicações. Os estudos mostram que temas como fragmentação de DNA espermático, idade paterna avançada e varicocele podem se associar a piores resultados em alguns cenários, mas é importante lembrar que associação não é o mesmo que causa direta, e que cada caso precisa ser analisado de forma individual. Cada um desses temas tem indicação e evidência próprias, não são carimbos automáticos. E "otimizar" o esperma por conta própria não substitui investigar direito com a equipe.

Um spermmaxxing que eu apoiaria de olhos fechados

O spermmaxxing que faz sentido não tem gelo, alho cru nem prateleira de frascos. Ele é: parar de tratar infertilidade como problema só da mulher, investigar os dois parceiros, fazer espermograma quando indicado, cuidar da saúde metabólica, não fumar, reduzir álcool em excesso, evitar anabolizantes e reposição hormonal sem acompanhamento quando há desejo de ter filhos, revisar medicamentos e exposições, tratar causas identificáveis e manter atividade física e alimentação adequadas.

E, por favor, não gastar fortunas em stacks de suplementos antes de saber se existe algum problema real. Se o homem quer mesmo se responsabilizar pela fertilidade do casal, esse é o caminho: menos performance, mais saúde.

E uma dica bem prática: enquanto você acompanha seu ciclo, temperatura basal e muco cervical, ele também pode fazer a parte dele e, quando fizer sentido, marcar um espermograma. Assim vocês chegam na consulta com informação dos dois lados. Porque fertilidade do casal é conversa de dois, né? Não campeonato de quem consegue se “otimizar” mais. 😂

Perguntas frequentes

Gelo nos testículos aumenta a contagem de espermatozoides?

Não há base para isso. Evitar calor excessivo faz sentido, mas colocar gelo direto no escroto não tem evidência de aumentar fertilidade e ainda pode causar lesão local pelo frio intenso.

Alho aumenta espermatozoides?

Alho é um alimento saudável, mas não existe evidência clínica robusta de que alho cru aumente a chance de gravidez ou funcione como tratamento de fertilidade masculina.

Quanto tempo demora para melhorar o espermograma?

A produção e maturação dos espermatozoides levam semanas, então costuma-se reavaliar depois de cerca de três meses. Isso é uma janela prática, não um "reset" que produz esperma perfeito nesse prazo.

Testosterona aumenta espermatozoides?

Ao contrário. Testosterona vinda de fora pode suprimir LH e FSH, reduzir a testosterona intratesticular e diminuir ou interromper a produção de espermatozoides. As diretrizes desaconselham seu uso em quem deseja ter filhos.

Anabolizante causa infertilidade?

Anabolizantes podem levar a poucos ou nenhum espermatozoide no ejaculado. A recuperação depois de parar existe em muitos casos, mas não tem prazo garantido. Isso deve ser conduzido por um andrologista, nunca por conta própria.

Ficar sem ejacular acumula esperma bom para o período fértil?

Não. Abstinência longa até aumenta alguns números por ejaculado, mas não melhora a capacidade de fecundar. Relações a cada 1 a 2 dias na janela fértil são o mais eficiente.

Espermograma ruim pode melhorar?

Pode, especialmente quando há fatores modificáveis como obesidade, tabagismo e excesso de álcool. Mas causas estruturais, genéticas ou hormonais precisam de diagnóstico e tratamento específico, e um resultado alterado costuma precisar ser confirmado.

Suplementos e antioxidantes funcionam para fertilidade masculina?

A evidência é fraca e conflitante. As diretrizes não recomendam nenhum agente específico de rotina. Podem fazer sentido em deficiências reais, mas não valem como aposta cega antes de saber se existe um problema.

Quantidade de sêmen significa mais fertilidade?

Não. Volume de sêmen não é medida de fecundidade. Um ejaculado volumoso pode ter baixa concentração de espermatozoides, e o que conta é o conjunto dos parâmetros, não a quantidade visível.

Deu para respirar? Espero que sim. A grande sacada de todo esse assunto é simples: é ótimo que os homens finalmente estejam olhando para a própria fertilidade, e eu comemoro cada casal que investiga os dois lados em vez de despejar tudo na mulher. Só que fertilidade não é performance, não é virilidade e não é campeonato de biohacking. É saúde. E saúde a gente cuida com o básico bem-feito e com investigação de verdade, não com gelo na cueca. Se esse texto ajudar você a ter essa conversa em casa com mais leveza, já valeu a escrita.

Fontes científicas consultadas

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